Um brinde a vida
Um mergulho no Desenho Vivo de Ana Branco
“Ecat”, “Irc” - sussurram as crianças em um misto de caretas e tremeliques. A reação desproporcional é devida a uma substância verde sendo formada diante de seus olhos: o suco de luz da vida. Tal suco foi apelidado assim por Ana Branco, principal organizadora da “Feira do Desenho Vivo” que há quase duas décadas (todas as quartas, às 10h) visa atrair crianças de escolas públicas para ter um contato mais direto e didático com os alimentos orgânicos - “a desenhar com as cores e sabores”, conta a visionária.
A feira do Desenho Vivo ocorre concomitantemente com a Feira Orgânica Didática e a Feira dos Produtores Orgânicos que oferece a preço de custo vegetais e hortaliças sem químicas. Todas as atividades servem como forma de divulgação da matéria eletiva “Convivência com o Bioship” termo cunhado pela professora do Departamento de Design Ana Branco que busca entender o conceito do que nos une como seres vivos - o ship (átomo) indivisível em cada um de nós.
Para entender a filosofia da professora é importante saber que ela segue a corrente do biólogo chileno Humberto Maturana que redefine o conceito de ser vivo,. Na chamada visão autopoiética do biólogo latino “o vivo é todo aquele que estabelece laços de afetar e ser afetado ao longo de toda sua existência - é um caminho de mão dupla que é sustentado pelos cordones - cordões relacionais.”
Ana conta que a ideia nasceu porque queria trazer as crianças para ter o contato com o alimento de uma maneira que não precisasse do fogo. A solução foi ideal para a professora que é adepta do crudismo há 28 anos - regime alimentar que se baseia no consumo de verduras, frutas, hortaliças, grãos , sementes e castanhas, porém todos em sua forma crua, mantendo assim as vitaminas, mineiras e outras substâncias, como as enzimas.
Ainda sobre o crudismo, ela retoma ao começo da Era Moderna para contextualizar a filosofia, “na época das grandes navegações imperialistas, os colonizadores valorizavam os temperos: canelas, pimentas, entre outras provindas da Índia e o cozimento porque precisavam armazenar as comidas que chegavam podres. As guerras e as conquistas de terras pelos Impérios só foram possíveis por causa do cozimento e das especiarias e daí o povo começou a comer comida de escravo, cabeça de escravo, pensamento de escravo, é isso”, reitera a crudista.
Ana Branco é uma senhora de curtos cabelos brancos, conhecida por alguns como a “yoda da PUC” devido a sua sabedoria encantadora e seu aspecto brevilíneo. Sempre munida de aparatos coloridos nos cabelos ou nas vestimentas, desta vez, a professora de design da PUC-Rio vestia-se com uma blusa listras branca e azul, xale com as setes cores do arco-íris e um colar vermelho oriundo de uma viagem para o interior do Brasil onde teve contato com índios.
Tentei me aproximar com muita timidez para conseguir uma entrevista com a yoda, ao que ela me disse que estava muito ocupada nos próximos dias, mas que eu poderia acompanhá-la por um dia no Desenho Vivo. E assim, me camuflei no meio de 16 crianças de oito a nove anos muito falantes e comunicativas da Escola Municipal Professora Marisa Vargas Menezes, situada na comunidade de Rio das Pedras, Zona Oeste.
“Olha o mico!”- gritava o líder da turma de oito anos Anthony de Menezes, que apontava para as copas das árvores, tendo todos os olhares fixos na direção do seu indicador. A turma que mal tinha postos os pés para fora do ônibus, parecia que levitava sem olhar para o chão, encantados com a natureza da faculdade na Gávea. Eles levavam até folhas já caídas no chão como “lembrança” de um dia que acabara de começar e já se consolidava em suas memórias.
Como já é de costume, Ana Branco sugere sempre uma tour para os estudantes conhecerem as dependências da faculdade. “Aqui fica a capela, esse desenho, na parede, foi feito por Cândido Portinari, podem chegar mais perto, só não vale tocar” dizia Ana com um tom de voz que acalmava até os mais bagunceiros da turma. Uma bonita coincidência ocorreu quando todos descobriram que o Portinari - que estava na capela - também estava na exposição “Uma carta aos brasileiros: 40 anos do projeto Portinari” no Solar de Grandjean de Montigny.
E assim as crianças ficaram quase uma hora dentro da exposição, conhecendo um pouco mais sobre o pintor paulista que marcou o Expressionismo e o Realismo Social no Brasil e no mundo. Neste momento, Ana nos deixou brevemente para concluir os arremates finais da experiência sensorial que em minutos teríamos contato.
Depois de descermos os degraus circulares do Solar que mais parecem raios de sol, fomos levitando até a feira onde teríamos o contato com o ritual do Desenho Vivo: começando com as sementes em processo de germinação, seguido do “suco de luz da vida” e do desenho vivo com que dá nome ao movimento.
“Um brinde a vida!” é exclamado por Ana, após entoar uma canção indígena. Assim, todas as crianças ingerem o líquido verde - muitas contrariadas e os demais seguindo um “espírito de manada” apenas porque o coletivo está fazendo, e então o imprevisível acontece: pedem mais. As caretas e tremeliques relatadas no começo da reportagem já são esperadas por Ana que trabalha com crianças há mais de duas décadas.
A pediatra Cristina Herreira credita a chegada da mulher no mercado de trabalho, ao consumo maior de alimentos industrializados pelas crianças e concluí que as grandes doenças da década são a alergias alimentares e a obesidade. De acordo, com um estudo realizado pela revista científica The Lancet, é esperado que o Brasil em 2025 tenha 11,3 milhões de crianças obesas. Os dados corroboram o gráfico feito pelo IBGE que ressalta o aumento da doença nas últimas três décadas.
“As crianças estão formando o paladar, se esse indivíduo começar a receber diariamente açúcar é natural que ela memorize o paladar de açúcar e quando for oferecida a ela uma salada ou fruta, a memória do paladar não irá estar nelas, gerando a rejeição” exemplifica a médica.
Segue a vivência na Feira do Desenho Vivo:
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